sábado, 17 de junho de 2017

Concessionária atrasa entrega de novas composições do Trem do Corcovado

17/06/2017 - O Globo

Futuros vagões só deverão entrar nos trilhos a partir de abril de 2019

Um dos trens se aproxima de uma velha ponte de madeira: pedestre percorre o caminho ignorando o risco de ser surpreendido pela composição Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Um dos trens se aproxima de uma velha ponte de madeira: pedestre percorre o caminho ignorando o risco de ser surpreendido pela composição - Custódio Coimbra / Agência O Globo
   
POR GUILHERME RAMALHO

RIO - Inaugurado em 1884 pelo imperador Dom Pedro II, o Trem do Corcovado descortinou belas paisagens a milhões de cariocas e turistas, e já recebeu papas, reis, príncipes e presidentes. Mais antigo que o próprio monumento do Cristo Redentor, era movido a vapor até 1910, quando ganhou locomotivas de ponta e seu caminho se transformou na primeira ferrovia eletrificada do Brasil. As composições que circulam hoje (a terceira geração) estão em operação desde 1979. Com o estofado rasgado em alguns bancos e sem aviso sonoro, deveriam ser trocadas este ano. No entanto, o processo atrasou. De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque Nacional da Tijuca, os novos vagões só deverão entrar nos trilhos a partir de abril de 2019, quase dois anos após o prazo previsto em contrato. Outros investimentos exigidos no documento, como a trilha Paineiras-Corcovado e a reforma das estações Cosme Velho e Silvestre, também não saíram do papel. E, para piorar, a favelização toma os cenários que encantaram tantos visitantes.

A Esfeco, que opera o sistema há 38 anos, ganhou em outubro de 2014 uma licitação para explorar o Trem do Corcovado até 2034. Para a concorrência, fez parceria com o Grupo Cataratas (administrador do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, do AquaRio e do zoológico), que, em 2015, pediu para sair do projeto — a solicitação foi aceita pelo ICMBio em janeiro deste ano. Uma das principais contrapartidas da concessão era a aquisição de três novos trens, mais modernos, rápidos e confortáveis. A encomenda foi entregue à empresa suíça Stadler Rail, e, no próximo mês, o diretor da Esfeco, Sávio Neves, vai a Zurique acompanhar o início da fabricação do primeiro veículo, que deverá ser entregue no segundo semestre de 2018. Testes precisarão ser feitos até abril do ano seguinte



Como será o novo modelo

Os vagões atuais comportam apenas cem pessoas.Os novos vão comportar 154

Não haverá ar condicionado. Durante os meses quentes de verão, todas as janelas laterais podem ser abertas para a circulação de ar, porque os turistas querem tirar fotos (como é hoje)

Velocidade na subida: até 25km/h. Velocidade máxima na descida: de 15km/h a 18km/h

Está prevista uma iluminação central com luzes de LED que iluminarão os vagões dos passageiros, sem impedir muito a vista durante a noite

Os designs panorâmicos em 60% dos compartimentos dos passageiros proporcionam aos turistas um visual completamente novo

Fonte: Trem do Corcovado


PROMESSAS E RECLAMAÇÕES

As mudanças prometidas no contrato de concessão são de encher os olhos. Os novos trens poderão levar ao Cristo até 6.710 passageiros por dia, um aumento de 76,8% em relação ao volume atual. A capacidade passará de 100 para 150 passageiros por composição. Já a velocidade de subida do Corcovado poderá ser aumentada de 15 km/h para 20 km/h, e a de descida, de 12 km/h para 18 km/h. Os vagões não terão ar-condicionado — a justificativa é que “os turistas querem tirar fotos com as janelas abertas” —, mas contarão com teto panorâmico.

— Tivemos alguns problemas. O aumento do câmbio estourou completamente nosso orçamento. Quando pegamos a proposta (de concessão), o dólar estava a R$ 2,20; agora, chega a R$ 3,40. Outro aspecto que também atrasou o processo foi a auditoria minuciosa da garantidora (que avalia a saúde financeira da concessionária, para abonar financiamentos no exterior). É muita burocracia. Quando um edital é feito, não se observa todo esse cenário de dificuldades. É natural que seja assim. Mas estamos indo, estamos avançando — afirmou Neves.

O diretor do Trem do Corcovado disse que a troca de equipamentos custará R$ 130 milhões. Segundo ele, as despesas com manutenção serão reduzidas, e haverá uma economia de 70% nos gastos com energia elétrica. Neves diz estar ansioso para colocar as novas composições em circulação porque precisa poupar: lamenta a queda no número de passageiros, que pagam uma tarifa que varia de R$ 61 a R$ 74, dependendo da temporada. O estudo de viabilidade econômica da concessão previa que 1,25 milhão de pessoas visitariam o Cristo Redentor pela ligação ferroviária em 2016, mas o ano olímpico fechou com 782.920 visitantes, 37% abaixo da demanda esperada. Para efeito de comparação, em 2013, um ano antes da Copa do Mundo, foram transportados 923.691.

Este ano, o cenário também é de queda, ao contrário do que previa o estudo, que apontava uma demanda de 1.159.736 visitantes. De acordo com dados do ICMBio, de janeiro a maio, foram transportados 339.285 passageiros, contra 360.341 no mesmo período de 2016, ou seja, houve uma queda de 5,8%.

— Isso impacta muito no contrato. Não sabemos se vamos comportar isso. Está muito pesado, e assumimos todas as contrapartidas — reclamou Neves, acrescentando que o impacto da crise econômica no turismo é grande. — O Rio está todo parado, há um contexto de crise muito forte, e a imagem da cidade anda ruim. Nunca passamos por um momento tão complicado, maio foi um desastre, os hotéis estão vazios. O Corcovado não é como o Pão de Açúcar, que tem uma visitação maior, mas nunca passou tanto aperto como agora. Há dias que chegam ao fim com um total de 400 visitantes, apenas.

O atraso para a apresentação dos planos de identidade visual, de segurança e vigilância e de comunicação e marketing já resultou numa multa de R$ 238 mil à concessionária do Trem do Corcovado, e não há mais possibilidade de recurso administrativo. André Barbosa, chefe da Unidade Avançada de Administração e Finanças do ICMBio, informou que, caso não sejam apresentadas justificativas plausíveis para o cumprimento de outras exigências contratuais, novas penalidades poderão ser aplicadas.

— Temos feito reuniões com o Trem do Corcovado em intervalos de, no máximo, duas semanas, para entendermos qual é a dificuldade para a execução das medidas previstas e discutir os melhores caminhos. Estamos acompanhando item a item do contrato, sempre balizados pelo edital. Não podemos esquecer que o objetivo não é punir, existe um cunho educacional. Não adianta aplicar um monte de multas. Queremos o cumprimento daquilo que foi previsto — destacou Barbosa.

UM CAMINHO DE DESECANTOS

Enquanto as novas composições não chegam, os trens atuais percorrem uma ferrovia cercada de desencantos. A equipe do GLOBO fez uma viagem na última terça-feira e notou que a quantidade de casas e caixas d’água próximas aos trilhos cresceu, e encontrou problemas de má conservação. Há postes enferrujados e guarda-corpos quebrados, e pedestres percorrem a ferrovia alheios ao risco de serem surpreendidos por veículos sem sinalização sonora. Além disso, o sistema de ordenamento da circulação das composições é antiquado: para se ter uma ideia, o maquinista precisa botar metade do corpo para fora de uma janela para mexer uma alavanca de mudança de direção.

A reforma da estação do Cosme Velho está pendente, sem prazo para ser feita. O projeto precisa ser aprovado não só pelo ICMBio como pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), já que o imóvel é tombado. De acordo com Sávio Neves, a ideia é construir mais uma entrada por uma lateral e um mezanino na parte de trás de terreno, onde ficariam as lojas hoje espalhadas pelo corredor da estação. O empresário também quer instalar ali uma livraria, uma cafeteria e um vagão no qual poderá ser realizado uma passeio virtual em 4-D.

Até agora, as exigências cumpridas foram a reforma da Estação Paineiras, o monitoramento das trilhas no Setor Serra da Carioca (Paineiras, Sumaré e Morro da Carioca) e a assunção dos contratos de manutenção das escadas rolantes e dos elevadores, de vigilância e de fornecimento de água e energia elétrica do Cristo Redentor.

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